Domingo, 19 de Julho de 2009

A vida ...

Caro amigo Falcão!
Certa vez, disse-me que tanto você como o poeta viam a assinatura de Deus nas flores, nas nuvens e também nas crises dos que sofriam transtornos psíquicos. Na altura, pensei sinceramente que isso era um delírio, que era impossível encontrar beleza no caos. Pois bem, você tem razão. Tenho encontrado um indiscritivel riqueza dentro daqueles que sofrem. Eles não são miseráveis nem passíveis de pena. Precisam de ser compreendidos, apoiados e encorajados. Tenho encontrado um património psíquico de inestimável valor no meio das lágrimas e do desespero.
Nos que sofrem de psicose, tenho descoberto uma criatividade espantosa. Embora os delírios e as alucinações os perturbem, eles revelam uma criatividade excepcional, um engenho intelectual sem precendentes. Nem os melhores guionistas e realizadores de Hollywood conseguiriam ter tanta imaginação. É de lamentar que a psiquiatria clássica despreze o imenso potencial intelectual deles.
A inteligência dos que sofrem de psicose maníaco-depressiva assombra-me. São verdadeiros génios. Na fase maníaca, a excitação, a rapidez de raciocínio e o volume de pensamentos que produzem transportam-nos para as nuvens, num estado de graça, longe de toda a realidade. Nessa fase, têm uma auto-estima exacerbada. Acham-se imbatíveis, revestidos de um poder sobrenatural. Na fase depressiva, pelo contrário, eles aterram a sua euforia, os seus pensamentos tornam-se pessimistas, levando-as a atolar-se em sentimentos de culpa e a viver os patamares mais baixos da auto-estima. Se aprendessem a pilotar os seus pensamentos e a gerir o motor da sua inteligência para não abandonarem os parâmetros da realidade, brilhariam mais do que qualquer “normal”. Infelizmente, são incompreendidos, tanto por eles mesmos como pela sociedade em que estão inseridos.
Entre as pessoas deprimidas, tenho encontrado uma rara sensibilidade. São tão sensíveis que não possuem protecção emocional. Quando alguém as ofende, estraga-lhes o dia, a semana, o mês e às vezes, a vida. São tão encantadores que, sem disso terem consciência, vivem o princípio da co-responsabilidade inevitável de maneira exagerada. Por isso, perturbam-se com o futuro e sofrem intensamente devido a problemas que ainda não aconteceram. Preocupam-se tanto com os outros que vivem a dor deles! São óptimas para a sociedade, mas péssimas para si mesmas. Falcão, eu não tenho dúvida de que, se os líderes políticos tivessem uma pequena dose de sensibilidade que as pessoas deprimidas possuem, as sociedades seriam mais solidárias e menos injustas. Sinto que a minha emoção é fria e seca quando comparada à deles.
Entre os que têm a síndrome do pânico, tenho encontrado, um desejo invejável de viver. Quando um ataque de pânico os atinge, o cérebro deles entra em estado de alerta tentando protegê-los de uma grave situação de risco, um risco virtual. Ficam com taquicardia, ofegantes e suam muito, procurando fugir da síncope ou da morte, uma morte imaginária que só existe no teatro das suas mentes. Se aprendessem a recuperar a liderançado eu nas suas crises seriam livres de cárcere do medo. Quem dera que os que consomem droga, os que vivem perigosamente, os terroristas, os que promovem guerras tivessem a consciência da finitude da vida e da grandeza da existência que os portadores da síndrome de pânico possuem. Apesar do sofrimento imposto pelo pânico, amam a vida. Queria amar a vida como eles a amam, viver cada minuto como se fosse um momento eterno.
Falcão, você tem razão, em me dizer que a sociedade é estúpida. Realmente, ela valoriza a estética e não o conteúdo. Estou decepcionado até com as pessoas aparentemente cultas. Não percebem que cada ser humano, e em especial, se sofrer de algum transtorno psíquico, é uma jóia única no anfiteatro da existência.
O meu desafio como psiquiatra não é apenas medicar os pacinetes ou fazer sessões de psicoterapia, mas mostrar-lhes que a flor mais exuberante brota no Inverno emocional mais rigoros. Os que atravessam os seus desertos psíquicos e os superaram tornaram.se mais belos, lúcidos e ricos do que eram.
Não é o que aconteceu consigo, meu dilecto amigo? Através do drama da sua psicose você expandiu a sua nobre inteligência e tornou-se um mestre, meu mestre. Agora, os meus pacientes ensinam-me. Em alguns momentos, aprendo mais com eles do que com os meus professores. Espero que a minha capacidade de aprender nunca morra.

Procurei especializar-me em psiquiatria para conhecer a fascinante personalidade humana e tratar das suas doenças. No entanto, assim como você questionou o que era a loucura, tenho interrogado muito sobre o que é a saúde psíquica. Quem é saudável? São saudáveis os meus colegas psiquiatras incapazes de receber os seus pacientes com um abraço e com um sorriso? São saudáveis os pais que conhecem as perosnagens da tv, mas não conhecem os temores e frustrações dos seus filhos, nem têm paciência para os seus erros? São saudáveis os professores que se escondem atrás de um giz ou de um computador e não conseguem falar da sua propia historia com os seus alunos? São saudáveis os jovens cuja emoção é incapaz de extrair muito do pouco, cujos prazeres são fugazes? E os que lutam para ganhar dinheiro, mas não sabem lutar pelo que amam, são eles ricos ou miseráveis?
Tenho também questionado a minha própia qualidade de vida. Pensei que era saudável, pois digo o que penso, luto pelo que amo e procuro proteger a minha emoção, mas descobri que conheço apenas a sala de vsitas do meu próprio ser. Falta-me tolerância, afectividade, sabedoria, tranquilidade. No dia em que deixar de admitir o que me falta estraei mais doente do que os meus pacientes. Obrigado por me ensinar que sou apenas um caminhante, Há muita estrada a percorrer…


Do seu amigo e admirador
Marco Pólo.



"A saga de um pensador,Augusto Cury"
Obrigado ... Tens razão

publicado por omeupequenoespaco às 09:28
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